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Noite chuvosa.
A cidade cedo se recolhe, na monotonia do tempo.
Passos caminham na calçada, esgueirando-se, como pedem, às paredes das casas, sob os beirais, protegendo-se do aguaceiro.
São sombras que erram.
Boêmios que entram para a história da cidade.
Um ou outro relâmpago ilumina
as desertas ruas.
Ouve-se o trotar de animal que mais de acentua no silêncio da madrugada,
à frente da casa do médico; cavalo que se estanca, pela súbita freada.
Pancada violentas na porta. Batidas de palmas junto à janela.
Afobado e nervoso está o cavaleiro.
- Doutor, doutor!! Sou o Maneco. Vim chamar o senhor para ir ver a mulher do compadre Chico da Benvinda, na Serra das Visões.
- Trago o animal para levar o doutor.
O médico abre a porta. Indaga o amigo sobre o caso da doente, afim de preparar a maleta de urgência.
- Doutor, vamos logo. Nasceu a criança, mas a companheira ainda não.
Quando isso acontecia, no interior, em época passadas, significava tratar-se de retenção placentária.
Caso grave, com possível hemorragia intensa, de consequêcia imprevisível à mão.
Preparado o necessário, cavalga-se. Toca como pode.
Estrada lamacenta. Galhos de árvore partidas pelo temporal, entulham o caminho.
Unhas de gato com seus espinhos
pontiagudos, riscam a face dos cavaleiros.
Após boa caminhada, vem ao encontro do doutor e do Maneco, o Zico da Serra, tão conhecido, aturdido e gritando.
Pede mais pressa. Agravou a doente.
Vão todos em doida corrida, serra abaixo, como se
estivessem em uma competição hípica.
O médico sem a prática de montaria,
desequilibra-se e cai. Vai ao chão, sobre a enxurrada que, veloz, esburaca, fortemente, a estrada carroçável.
Recupera-se, imediatamente, da queda e prossegue a viagem.
Avista-se, embaixo, no grotão da serra, a morada do Senhor Chico da Benvinda.
Ao se aproximar da casa, ouvem-se vozes, choros incontidos.
Mugem as vacas, diferentemente, à beira do curral. Cães uivam, num gemido dolente.
Pessoas entram e saem da casa, com fisionomias místicas e entristecidas.
Como se a natureza se transmudasse, sentido a cruel realidade.
São pormenores que, somados, marcavam na clinica da roça, a antevisão de uma tragédia.
O médico pressentiu tudo. Um fim.
Nada a fazer. Sua missão inútil.
Mais uma alma seguia para Deus.
Seu Chico cumprimenta o doutor e os filhos tomam a bênção. Costume respeitoso que se acabou com o tempo.
Efeito do progresso...
- "Pois é, seu doutor, já sou viúvo. Nada mais desejo, nesta vida. Sou um trapo. Não quero mais viver!"
Com estas palavras amarguradas, os lamentos e chôros se redobram. As crianças, gritando, agarram ao médico e suplicam para salvar a mãe. A inocência de suas almas não sentiram ainda o fim de quem lhes dera a vida.
O doutor abraça-as, sabendo que não adiantavam as palavras de conforto. Apoio inútil na perplexidade do acontecido.
Nota-se nervosismo de algumas senhoras.
Abrem-se malas, velha canastra, à procura de algum objeto.
Uma relíquia talvez...
Benvinda antevendo o fim, pediu que a vestisse com o atraente e rendado vestido do dia em que esperava
o noivo para ser solicitada em casamento. Uma lembrança de um juramento eterno.
Passados alguns meses na pequena localidade, o médico encontra o amigo Chico. Estava vestido elegantemente. Terno e gravata. Muito sorridente e cheio de entusiasmo.
- Que é isto, seu Chico?! Está bonito.
- Seu doutor, estou casando de novo. Homem sem a dona de casa não vale a pena viver.
Vive morrendo.
- Até mais, seu doutor.
E seguiu apressado para a Igreja ao encontro do seu "Novo Amor." |