Sobre o Autor

Toda semana uma nova história vivida e romanceada pelo Dr.Pedro Simão Zenun

UM NOVO AMOR

          Noite chuvosa.
        A cidade cedo se recolhe, na monotonia do tempo.
        Passos caminham na calçada, esgueirando-se, como pedem, às paredes das casas, sob os beirais, protegendo-se do aguaceiro.
        São sombras que erram.
        Boêmios que entram para a história da cidade.
        Um ou outro relâmpago ilumina as desertas ruas.
        Ouve-se o trotar de animal que mais de acentua no silêncio da madrugada, à frente da casa do médico; cavalo que se estanca, pela súbita freada.
        Pancada violentas na porta. Batidas de palmas junto à janela.
        Afobado e nervoso está o cavaleiro.
        - Doutor, doutor!! Sou o Maneco. Vim chamar o senhor para ir ver a mulher do compadre Chico da Benvinda, na Serra das Visões.
        - Trago o animal para levar o doutor.
        O médico abre a porta. Indaga o amigo sobre o caso da doente, afim de preparar a maleta de urgência.
        - Doutor, vamos logo. Nasceu a criança, mas a companheira ainda não. 
        Quando isso acontecia, no interior, em época passadas, significava tratar-se de retenção placentária.
        Caso grave, com possível hemorragia intensa, de consequêcia imprevisível à mão.
        Preparado o necessário, cavalga-se. Toca como pode.
        Estrada lamacenta. Galhos de árvore partidas pelo temporal, entulham o caminho.
        Unhas de gato com seus espinhos pontiagudos, riscam a face dos cavaleiros.
        Após boa caminhada, vem ao encontro do doutor e do Maneco, o Zico da Serra, tão conhecido, aturdido e gritando.           
        Pede mais pressa. Agravou a doente.
        Vão todos em doida corrida, serra abaixo, como se estivessem em uma competição hípica.
        O médico sem a prática de montaria, desequilibra-se e cai. Vai ao chão, sobre a enxurrada que, veloz, esburaca, fortemente, a estrada carroçável.
        Recupera-se, imediatamente, da queda e prossegue a viagem.
        Avista-se, embaixo, no grotão da serra, a morada do Senhor Chico da Benvinda.
        Ao se aproximar da casa, ouvem-se vozes, choros incontidos.
        Mugem as vacas, diferentemente, à beira do curral. Cães uivam, num gemido dolente.
        Pessoas entram e saem da casa, com fisionomias místicas e entristecidas.
        Como se a natureza se transmudasse, sentido a cruel realidade.
        São pormenores que, somados, marcavam na clinica da roça, a antevisão de uma tragédia.
        O médico pressentiu tudo. Um fim.
        Nada a fazer. Sua missão inútil.
        Mais uma alma seguia para Deus.
        Seu Chico cumprimenta o doutor e os filhos tomam a bênção. Costume respeitoso que se acabou com o tempo.
        Efeito do progresso...
        - "Pois é, seu doutor, já sou viúvo. Nada mais desejo, nesta vida. Sou um trapo. Não quero mais viver!"
        Com estas palavras amarguradas, os lamentos e chôros se redobram. As crianças, gritando, agarram ao médico e suplicam para salvar a mãe. A inocência de suas almas não sentiram ainda o fim de quem lhes dera a vida.
        O doutor abraça-as, sabendo que não adiantavam as palavras de conforto. Apoio inútil na perplexidade do acontecido.
        Nota-se nervosismo de algumas senhoras.
        Abrem-se malas, velha canastra, à procura de algum objeto.
        Uma relíquia talvez...
        Benvinda antevendo o fim, pediu que a vestisse com o atraente e rendado vestido do dia em que esperava o noivo para ser solicitada em casamento. Uma lembrança de um juramento eterno.
        Passados alguns meses na pequena localidade, o médico encontra o amigo Chico. Estava vestido elegantemente. Terno e gravata. Muito sorridente e cheio de entusiasmo.
        - Que é isto, seu Chico?! Está bonito.
        - Seu doutor, estou casando de novo. Homem sem a dona de casa não vale a pena viver.
        Vive morrendo.
        - Até mais, seu doutor.
        E seguiu apressado para a Igreja ao encontro do seu "Novo Amor." 



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