|
Os casos de lepra eram poucos na localidade.
Talvez, a investigação epidemiológica (procura dos casos) ficasse a desejar.
Médico da saúde Pública.
O doutor fez levantamento geral dos doentes. Continuam sob a sua responsabilidade o controle de doentes e dos
contatos.
No emaranhado dos casos clínicos, no ambulatório ou na residência do enfermo, poderia registar casos novos.
O doente J. Sob, pequeno agricultor, hanseniano, residente na roça, comparece para reexame, conforme a data, previamente marcada.
Sai de madrugada de casa, à pé. Chega à cidade, com fome e sede.
Dirige-se a um bar. Antes de qualquer palavra, e aspecto disforme da face torna-se repulsivo aos olhos do comerciante.
Expulsa-o, empurrando-o à rua.
Mais adiante, noutra venda, pede apenas a água para saciar a sede.
Nega-lhe o liquido, que não custa nada a ninguém. Nega, mesmo propondo a pagar. Receio do contato.
O seu aspecto do doente que sofre "do sangue" ´é motivo para ser repelido "como cão".
Como animal desorientado tenta encontrar refúgio seguro.
Onde e como?
Desespera com o aumento da fome e da sede, mais o cansaço da longa caminhada rural à cidade.
Poderia abandonar aquela peregrinação, mas não o faz. Foi
chamado. Quer cumprir o dever de doente digno e que compreende seu mal.
De súbito, como se luz iluminasse a sua mente desorientada, pensa nos médicos e amigos e segue em direção à residência dos mesmos.
Entra pelo portão da garagem. Senta-se no chão.
Está exausto e humilhado.
Ao vê-lo, os doutores vão ao seu encontro.
Deprimido, revela o que passou com ele - a repulsa que recebe por toda parte.
Ali encontra amparo, alimentação e água.
Esse apoio foi continuo e por longos anos.
Iza, hanseníana cuja vida fez parte de uma dessas narração, fixou-se para sempre, na memória, do médico, pela sua amizade.
Maria das Graças, idosa, cansada do trabalho rural, confirmou a forma contagiosa da doença de hansen.
___ "A senhora está com hanseníase, hoje; lepra, no passado".
Explicada a doença, como se fosse uma sentença, pálida, olha para o doutor e desmaia, estendendo-se no chão da casa.
Não aceita a realidade amarga que não se pode esconder. Nem a ela nem aos familiares.
Doloroso também para o médico que se dedica à Saúde Pública.
O técnico de hanseníase que acompanha médico Sanitarista, o Senhor Virgílio, há trinta anos no setor, envolver o doente num abraço e pronuncia palavras de singular afeição.
Usada com vigor a medicação, verificar-se, depois de algum tempo, a melhora da paciente.
O aspecto facial mais ameno, menos disforme.
Tornou-se alegre...
Assim foram tantos que receberam o carinho e o desvelo dos que dedicam à humanitária cruzada.
Com o arsenal terapêutico valioso, com medidas preventivas, exames periódicos de doentes e contatos, antevê-se um futuro promissor aos hanseníanos.
Cura da doença ou impossibilidade de transmissão do mal de Hansen.
Uma profecia deve acontecer.
Raul Follereau, há quase 40 anos em:
"Lordes De La Charité", afirmava:
"Não haja ilusões. A libertação dos leprosos triunfados de 2.000 anos de horror, inscrever-se-á na história humana como vitória comparável à libertação dos escravos."
É o que assistimos agora.
A cura da lepra.
Ela está sendo vencida.
Acabou-se a vergonha de ser hanseníano, tornando-se estimado no tumultuar da vida.
A noção falsa do contágio que os atordoava não são mais espectros a torná-los repugnantes.
É a medicina que domina o mal.
É a verdade que chega e vence a sombra densa do desespero.
É Jesus que encontra todos os Lázaros do mundo pelo Ciência e pelo Amor.
|