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A manada estava localizada às margens do Rio do Peixe, onde recebe o Ribeirão das Posses.
O doutor é chamado para atender a uma cigana.
Vaga referência de hemorragia uterina.
Era próximo à localidade. Poucos minutos de viagem.
Barraca desconfortável.
Todos os membros compartilham daquela vida errante, vivendo nos estreitos espaços de cada barraca, de condições higiênicas precárias.
A mulher do cigano estava grávida, sem precisar o tempo de gestação.
Entra em trabalho de parto. Pequenas perdas sangüíneas.
A criança se apresenta em posição de nádegas, tendo desprendidos os membros inferiores.
O marido, querendo dar solução ao caso, traciona os membros inferiores, como pode. Ao praticá-la, o corpo se desprende da cabeça.
As porções se separam: tronco e membros para fora e a cabeça ficou dentro da cavidade uterina.
Ao exame, verifica-se cabeça solta, como uma bola óssea em campo liso.
Todos as tentativas de prendê-la para tracioná-la se tornavam infrutíferas. Difícil o manuseio.
O médico explicou ao cigano que para conseguir êxito, teria que perfurar a cabeça do feto para esvaziá-la.
O doutor não suportava continuar debaixo da barraca, coberta de couro, mal curado.
A cigana deitada no chão, leito de alma heróica.
O convite ao cigano, para auxilia-lo, foi aceito com boa vontade.
Pediu-lhe para fazer pressão no abdômen à altura do fundo uterino.
Diminuiria o espaço da cavidade e reduziria o movimento da cabeça fetal.
O auxiliar atuou, com precisão.
Com lanceta perfuro-cortante, o doutor alcança a cabeça tateando, encontrou uma fontanela (porção mole inter-óssea), o que consegue após exame cuidadoso e seguro. Perfurado o órgão no ponto determinado, esvazia-se o seu conteúdo.
Com a abóbada cefálica vazia, os ossos se acavalam e presos á mão do esculápio, foram extraídos e em seguido, foi extraído o órgão placentário.
Terminada a missão, tudo evoluindo bem, o paciente se sente tranqüila e animada.
Naquele exato momento de felicidade, o marido sai da barraca e faz saudação som grito e palavra ininteligíveis, lança para o ar seu chapéu.
Em ciranda infernal, acompanham-no toda manada, como se fossem guerreiros, comemorando a vitória de árdua batalha que
não existiu.
Contempla-os o médico e absorto, despede com aceno de mão.
O doutor regressa, pensando naquele pequeno mundo de seres humanos, unidos na alegria e na adversidade.
Vivendo como se estivessem na era medieval.
Quando se dedica à alguém o beneficio que muitas vezes, não proporciona bem material, este se perde diante do apoio realizado ao nosso semelhante.
De longe em longe aflora à sua mente a felicidade fugaz de um breve instante, em que o sacrifício penoso se traduz em benemerência, que marca a vida do médico.
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