|
Noite - 22 horas.
Chega à casa do médico o Silva
Tomaz.
Veio chamar o doutor para ir ao "Capão da Onça".
Está acontecendo uma tragédia.
A Senhora do Senhor Dominguinhos, Dª
Frauzina, encontra-se estirada no chão da sala, sem consciência.
"Perdeu a fala. Não responde. Não enxerga."
Emocionado e reticente o portador.
Imediatamente, o doutor segue em condução de aluguel da praça.
O clarão da lua ilumina a estrada de terra, semi abandonada, pois os faróis do carro fracos; como de fossem lâmpadas no fim da serventia.
Trinta minutos bem rodados, chega-se na roça, ao local do chamado,
Ouviram-se, na escuridão silenciosa, com mais nitidez, à noite, gritos e palavrões. Espocavam tiros do curral, embaixo, para atingir as janelas do casarão, em posição bem mais alta. Dessas, a pontaria de uma espingarda espalhava chumbo nos contendores, entrincheirados dentro do rancho.
Poucos minutos depois, notava-se enfraquecimento do combate. Duelo menos intenso. Talvez o fim da munição.
Chega o doutor, com a orientação do guia, ao salão principal da moradia.
Forte vento soprava pelos desvãos do assoalho de tábuas largas, bem limpo, provocando um desconforto.
Desmaiada, ali estava a Senhora Frauzino. Faz o exame clínico, como pode, nas circunstâncias da velhice; consciência confusa e excitabilidade acentuada no pandemônio daquele instante de terror e medo.
As horas tornam-se mais longas.
Chega a policia de "São José" que recebe denuncia do grave acontecimento. Prende todos os envolvidos e os leva ao distrito policial.
O médico presente no fim da batalha, é apresentado ao comandante do destacamento. Este aconselha-o a se precaver de situações perigosas e inesperadas.
Embora a serviço da vida do semelhante, nunca se pode medir a exaltação, a incompreensão e os delírios da mente humana.
A origem da contenda se devia a antigas questões de divisão de terra.
Dona Frauzina estava mal.
O doutor medicou. Acompanhou o caso durante a madrugada. Melhoras lentas.
Com a recuperação, perguntou do esposo: "Que seria dela sem o velho companheiro?" Palavras repetidas a cada instante.
Exausta, doente e idosa, que desejaria do mundo sem aquele que, há mais de meio século, é o amigo de todos os instantes de sua vida?
O médico, conhecedor da prisão de Senhor Dominguinhos, seguiu para "São José". Foi à delegacia. O delegado ocupava o cargo, há tempo. Velha honraria que tanto o enobrecia, apesar de função penosa. O doutor pediu-lhe que liberasse o velho roceiro. Muito ajudaria na melhora de Dona Frauzina, com a presença do esposo.
Inicialmente foi difícil demovê-lo.
A persistência e a exposição do médico convenceram aquele estimado servidor público.
Libertou o Senhor Dominguinhos e, no mesmo momento, os demais briguentos. Sábia medida da autoridade policial que, assim, proporcionava igualdade de ação, acostumado que estava a lidar com provas confusas e o tartamudear de testemunhas vacilantes. O doutor agradece e retorna com o velho receio, corpo arqueado que o trabalho da enxada acarreta após longo tempo da atividade rural.
A experiência clínica, no interior, constatou que é o melhor exercício contra as doenças da circulação e preventiva às do coração, embora rude e de pouco rendimento.
O manejo da enxada exige paciência e sabedoria. Existem enxadeiros famosos, que sabiam preparar o instrumento de trabalho, executá-lo e conservá-lo na sua estima.
Chega-se à residência do Senhor
Dominguinhos.
Não se conteve e chorou
Alí é o sonho de seus sonhos. Motivo único de viver. Ao vê-lo, dona Frauzina se emocionou e lágrimas de alegria desceram pela rugas da face, como veios cristalinos de água que brotassem do seu coração.
Mais do que a idade marca o sofrimento.
E se abraçam e se contemplam; os mãos trêmulas se apertam intensamente no reencontro.
Esta é a sua prisão: mãos inseparáveis da vida que se tocam e se apertam.
O cansaço do doutor, os diligências penosas, se diluíram no sagrado dever de amparar aqueles idosos, tantos outros necessitados de apoio e de segurança.
Os médicos, na sua atribulada missão, somam ao seu trabalho específico, os momentos delicados, onde é necessário conhecer os pensamentos humanos.
Na arte de curar, é preciso muita alma e muito amor. "Sem alma seria a medicina mais amena a mais cômoda para o médico, que teria menos a pensar e raciocinar".
|