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A amplitude da medicina, no Interior, obrigava ao médico o exercer de tudo, a fazer de tudo.
Tarefas, muitas vezes, impossíveis, assunto difícil, embaraço para o médico, no interior, quando envolve a medicina legal. Conforme a decisão do doutor, baseando-se apenas na perícia, sem adentrar nos meandros da psiquiatria, inocente vai para a cadeia, criminoso é beneficiário.
Ao entardecer, quando o sol descamba, quando sua luz encosta no dorso das colinas, como se fossem adrede desenhados apara a luxúria de um pincel, aparece no consultório, moça, para exame de virgindade.
Trazia a solicitação da justiça. Acompanham-na pai e amigo "protetor".
O doutor conversa com a jovem, na sala de exame, para investigar fatos que pudessem evitar o exame ginecológico da menor, sempre constrangedor.
Declarou que foi desvirginisada por filho de proprietário rural, cujo nome declinara. Afirmação categórica.
Ao examiná-la, verifica-se a presença de hímem fibroso íntegro, atresia do aparelho genital.
Anomalia congênita.
Impossibilidade de realizar o congressos sexual.
A realidade anatômica, normal ou animal, é inalterável na sua objetividade.
O laudo médico é feito, com exposição detalhada, remetido à promotoria pública.
O doutor promotor esclareceu à família que não iria iniciar o processo contra o moço e obrigá-lo ao casamento.
O suposto causador do estupro, envergonhado pelo escândalo, mordaz e escandaloso na época, em cidade pequena, foi residir em outra localidade, o que fez aumentar a suspeita de sua culpa.
O pai da jovem e o "protetor" ficaram revoltados, não admitindo a decisão médica e da justiça.
Seres humanos atrelados ao interesse mesquinho, trazendo na face a máscara da hipocrisia, pouco importando que se constituíssem ruínas, banhados de lágrimas.
A moça permanecia calada, como ave em ninho frágil, imaginado por construtores perversos.
Mudou-se para e Estado de São Paulo.
Poucos meses depois, com "abdômem crescido" comparece novamente a moça para exame ginecológico.
Na sala de espera do consultório, os mesmos personagens.
O médico via no semblante e nos gestos das pessoas a transparência de maus pensamentos, e de idéias pré-concebidas que tumultuavam e até mesmo agrediam o silêncio daquelas paredes esmaecidas pelo tempo, mas sempre sóbrias às queixas e aos sofrimentos.
Desejavam novo exame da jovem, pois a barriga crescia. Possível gravidez adiantada.
Agora todo aparato à mente de que alí se montava o circo para a covardia e o medo, delirantes na sua manifestação...
A tia da moça, vinda de idade paulista, falante, desabrida nas palavras, queria conversar a todos, inclusive, modificar a anatomia humana.
O médico ficou penalizado.
O ser humano doente, que necessita da Medicina, sempre teve do profissional a mais respeitosa consideração.
Convidou o representante da justiça à sala de exame, onde estava a moça. Mostrou-lhe os órgãos genitais da menina-moça; a falta de desenvolvimento dos mesmos; a deformação; a impossibilidade da cópula se realizar. Útero infantil.
O doutor já cansado, e em vista do testamento ocular jurídico, não deu mais nenhum laudo e para não mais assistir confusões, se eximiu do assunto.
Sugeriu a opinião de outro colega. Este, de cidade vizinha, com a minuciosidade que lhe é peculiar, assim descreve, após o exames:
___ "Útero infantil, hímem fibroso, aderente à vagina, também anômalo. Inexistência de Cérvix. Não há condição à sexualidade. Impossibilidade de concepção. Nem mesmo cirurgia reparadora."
O doutor tomou conhecimento do laudo pelo Dr. Promotor, mais digno e ilustre. Mais tarde confirmando em conversa com ilustre colega.
Havia, no entanto como se previa de início, a simulação de uma gravidez engendrada por interesses escuros, usando a ignorância e a ingenuidade de uma menina-moça.
A autoridade judiciária irritado, disse que diante de todos os exames e fatos iria processar a jovem, familiares e acompanhantes, a fim de não mais abusarem da Justiça, nem olvidar da Ciência, em caso objetivo e inquestionável.
Determinou que os personagens da farsa fossem detidos, não se ausentassem, afim de indiciá-las e pedir a condenação na forma da lei.
O médico não permitiu que o fizesse. Não desse um passo nesse sentido.
Afogaria no tormento diabólico a inocência. Destruiria a esperança de uma vida para lança-la no torvelinho ignaro da maldição.
Pois, a moça ignorava a patologia ou seja as alterações anatômicas no seu corpo.
Merecia, pois, o resguardo, a compreensão e não o castigo.
Assim, muitas vezes se constituem seres humanos incompletos, sem no entanto conhecimento de anomalias.
É necessário entender ou pelo menos respeitar, com dignidade e solidariedade, para saber
dar-lhes apoio.
Ai está o vasto campo para a psicologia.
Tem-se a impressão, que o sol secou, do médico, a fonte das lágrimas.
Mas não! Elas são constantes, na sua mente, no seu coração e na sua vida.
Exteriorizá-las é desserviço à medicina e ao doente.
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