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Elegante o Senhor Graças - Fazendeiro.
Não esquecia o trabalho. Tudo lhe ia bem.
Apreciava as festas rurais.
Em uma das festas, alguém fez arder seu peito. Sem esperar, inicia o devaneio pela filha do proprietário rural, onde se realizava o pagode.
A moça se esquiva. Não quer o namoro e o mostra delicadamente. Menina ainda, não lhe interessa por enquanto a arte de amar.
O Senhor Graças não se conforma. Procura sempre a aleita de seu coração. Embora ativo e inteligente, não percebe os volteios femininos, tão caprichosos.
Debalde esforço.
Tenta na ultima festa rural encontrá-la e conquistá-la, como se vigiando não a perdesse ante seus olhos.
A donzela procura, de maneira sutil, desanimá-lo na porfia pela sedução. Como se nada percebesse, prossegue no "afan" romântico. Está atribulado. Não é correspondido.
Quando os olhos se fixam, ternamente os corações se entendem.
O Senhor Graças era genioso, embora estimado.
Poucas palavras. Poucos amigos. Sincero.
Num Domingo, dia de festa, prepara-se para a mesma.
Arreia a mula, como gosta. Belo animal.
Montaria e acessórios reluzentes. Todos os detalhes emoldurantes para chamar atenção.
Veste-se, elegantemente, como de costume.
Segue ao local da festança.
Ao ver a moça, dói-lhe o peito. Queima-lha a face. Conversa dominadora.
Gestos apropriados e burilados. Prepara-se com tudo, até sutilezas à conquista.
A peleja foi inútil. Sente fugir de suas mãos, as mãos da donzelas que ele almeja. A sua mente se impregna se sentimentos de desprezo e desdém.
Revoltado ao extremo, regressa.
Perde a noção das coisas. Da vida até.
De volta à fazenda, pelo caminho, o seu cérebro se tumultua de idéias descabidas, dirigidas todas no sentido de substituir o melhor de sua alma por desvairada, confusa e melancólica decisão.
Chega. Apêa do animal.
Prende a mula no batente da porteira.
Atordoa-lhe a mente.
Toma da arma que traz no coldre. Dirige o cano à altura da boca, na direção da cabeça.
Treme-lhe a mão no acionar o gatilho e o projétil atinge o olho esquerdo.
Como não conseguiu o desígnio macabro, aponta a arma, agora ao nível do ouvido direito. O gatilho de novo. A mão treme mais ainda. A bala alcança a cabeça lateralmente de raspão e atravessa o olho direito.
O médico chamado, quase presencia, o segundo disparo.
No local verifica-se manchas de sangue na proximidade do curral que, num contraste acentuado, tinge de vermelho a grama rasteira e verde.
Dramática luta do médico e de amigo para impedir e Senhor Graças a tentar, por outros meios, armar-se, novamente, embora gravemente ferido.
Sem enxergar, sangrando, caminha às apalpadelas pelos cômodos da casa para onde fora levado. Redobram-lhe as forças contra os que preocupam contê-lo.
O médico consegue examiná-lo. Está cego.
O doutor lhe pondera que a vida continua. É preciso viver.
Trabalhar e corajoso, muito coseguiria. Os exemplos são muitas.
Não se conforma. " A desgraça não está completa. Parou no meio do caminho. É preciso chegar ao fim," disse.
Convencido pelo médico, aceita ser examinado no Instituto Burnier, em Campinas.
Constata-se cegueira irremediável. Perda total da visão.
A cegueira também é luz. Dá a quem a perde o acentuado poder de exercer a imaginação, campo miraculoso que desdobra e se multiplica na Fé e na
Esperança, o dom de viver feliz.
O Senhor Graças se modifica.
Batem em retirada de seu cérebro as recordações traumatizantes do triste episódio.
Voltam às suas faces o sorriso perdido; tornam-se taciturnos o vazar dos olhos.
O sol da vida bate, novamente, em sua alma. Aquece-a apara o triunfo.
Tempos depois encontra o doutor. Sorriso largo.
"O doutor tinha razão. A vida tem que continuar."
O Senhor Graças enamorou-se pela filha de pessoa de sua estima, que residia na fazenda.
Casaram-se. Tiveram filhos.
O Senhor Graças amava-os desesperadamente. Preocupava demais com as crianças. Por qualquer motivo, os levava ao médico.
Tem razão. São os olhos do amor paterno, mais sensíveis que a visão que lhe faltava.
Muito diligente, na sua propriedade rural, sua filha de mais idade, embora menina, muito o ajudava.
Viveu anos.
Ficou na lembrança de todos a imagem do homem que sofreu, mas deu exemplos de paciência e perseverança.
Esqueceu a cegueira dos olhos para se tornar cego no amor paterno. Na atribulada e sofredora vida, deixou os filhos, 'belos' que colheu dentre os espinhos da jornada.
Nos olhos sem luz, viveu as doces alegrias que a peraltice infantil lhe proporcionara, amenizando o longo caminho do martírio.
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