Sobre o Autor

Toda semana uma nova história vivida e romanceada pelo Dr.Pedro Simão Zenun

A Boneca


        A surpresa médica está sempre constante, principalmente em se tratando de criança. Renascem a sua a ternura e a pureza da alma infantil.
        Nos sobressaltos da profissão, há todo um espectro de desengano e de alegria.
        O sorriso da criança, o seu abraço e o seu olhar são como fontes perenes de amor. Numa manhã entrou no consultório, o pai da criança, bastante nervoso, logo esclarecendo que a filha estava muito mal. Pedia ao médico pressa para atendê-la. É na zona rural.
        A caminhada dói longa pelo denso cerrado, onde as árvores frondosas pontificam a sua própria história ou a história de cada um, descrita na sombras acolhedoras. Quem sabe, também ali, os animais se refugiavam do calor ou das intempéries, enriquecendo o colorido das campinas.
        O doutor chega ao local do chamado.
        Menina doente. Bem pequena ainda.
        Indócil e temerosa, estranha a presença do médico.
        Antigamente para acalmar a criança rebelde, a mão dizia: "cou chamar o doutor para fazer uma injeção".
        Criava na mente infantil a figura do médico como sinistra e mal feitora.
        Toda uma psicologia infantil, dentro de nossos limites, teria que ser aplicada para que dois entes humanos, médico e criança, se entendessem, pois, sempre se encontrando na caminho do sofrimento.
        O doutor acostumado a lidar com as criança, tratá-las desde o período acadêmico e mais em serviços pediátricos, adquire a prática segura e benfazeja em torná-la amigos ou, pelo menos acessíveis aos exames médicos.
        Os pais, muitas vezes, não tem paciência com a rebeldia infantil e procura contê-las com energia.
        Faz por bem, porque quer o bem do filho.
        O doutor espera acalmar o ambiente.
        Familiariza-se devagar com a criança, como se também pertencesse á família.
        A alma da criança é sensivel, de inteligência espantosa.
        Naquela zona rural, àquela hora, o sol batia intenso.
        Os recortes dos montes, as ondulações das árvores no seu dorso, enfileiradas, pareciam sagradas caravanas no deserto, pacenciosas na travessia. 
        O médico precisa de muita paciência para chegar á criança que também, com jeito e carinho, vai cedendo; se tornando quieta.
        Talvez, a rebeldia a extenuasse. Cansasse.
        Sofria. A doença a castigava.
        Os olhos brilhavam e inquietos mostravam o seu temor, o seu temor, o seu receio, mas solicitava, no íntimo, o fim de seu padecer.
        O doutor, precavido, mas andanças médicas, principalmente para atender crianças, levava alguns brinquedos.
        O que não faltava era uma boneca.
        O caso não permitia esperar mais. Era preciso agir.
        Estende a mão à criança, na qual trazia uma boneca.
        A criança entre receiosa e querer o brinquedo, cedo, desconfiada, pega o objeto do seu enlevo.
        Consentiu em examiná-la.
        Que mais desejaria a menina, além da cura, o carinho dos pais, senão uma boneca?
        Os seu olhos inocentes brilham mais, diante do brinquedo. Alumiam a alma como as estrelas no céu.
        O doutor aplicou a medicação de urgência. Outros se lhes seguiram, além da vigilância constante.
        Alegre a criança. Satisfação incontida dos familiares.
        Tranquilidade ao médico.
        O doutor se prepara para regressar à cidade depois da última visita à zona rural, cujas revisões médicas foram necessárias.
        A menina agora abraça o médico e como que agarrada à cintura do mesmo, não quer que ele se despeça. Despedir, não!
        Mas o faz.
        Sucedem-se os anos.
        Uma acontecimento pleno de emoção.
        Anos depois o doutor vai a localidade onde exerceu a profissão por alguns anos.
        Família muito amiga o chamara.
        Acontece fato inusitado, surpreendente mesmo.
        Em plena calçada da rua principal, senhora já avó fixa o seu olhar na fisionomia da pessoa, como se a conhecia há anos. Percebe e reconhece que se trata do médico que, na madrugada fria e chuvosa, fora atender a criança que é a sua filha.
        Não havia que duvidar.
        O mesmo homem - o mesmo profissional ma medicina.
        A senhora, emocionada aproxima-se, com alegria e o cumprimenta.
        Tinha algo a amostrar ao doutor e convida para entrar em sua casa, próxima do local onde se encontra.
        O mistério foi logo desfeito. Surpresa agradável.
        Mostra ao médico uma boneca nas mãos de sua neta que aperta ao colo o brinquedo e vai ninando.
        A filha guardou o presente do médico, como bem precioso.
        De criança à mocidade, a boneca está guardada.
        Casa-se e tem aquela menina que também agora brinca com a mesma boneca.
        É o seu enlevo, como outrora, fora o enlevo da mãe, criança, permitia o doutor examiná-la, com mais tranquilidade, apesar do sofrimento que a aflígia.
        História comovente.
        Que brinquedo em que a menina desde tenra idade pede ou espera como presente senão uma boneca? A criança, a menina quer trazê-la nos braços, mimá-la, fazê-la dormir, tal como acontecera com a sua mãe. 
        Fala-lhe tanta coisa, o brinquedo.
        Guarda-a como símbolo da delicadeza e da ternura.
        Os tempos podem mudar.
        Surgem as máquinas poderosas, aeronaves cortam os ares; remove-se a terra; pertuba-se o silêncio das pedras. Exploram-se planetas.
        Só não muda o desejo da criança, da menina pela boneca.
        A mente da criança é nobre a altiva.
        A mente pureza d'alma!
        Que inocência sagrada!
        Quer a boneca para o seu enlevo.
        Dos palácios às choupanas; das luzes dos grandes centros, à escuridão dos arredores, há em alguma moldura ou móvel, ou em qualquer canto, bem protegida, um brinquedo, principalmente a boneca para a inocência e a delicadeza da alma feminina, angelical.
        Quantas lembranças, como a que motivou a história, tantos médicos viveram, lidando com as crianças de sua pediatria.

Um gesto, Uma recordação.



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