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A surpresa médica está sempre constante, principalmente em se tratando de criança. Renascem a sua a ternura e a pureza da alma infantil.
Nos sobressaltos da profissão, há todo um espectro de desengano e de alegria.
O sorriso da criança, o seu abraço e o seu olhar são como fontes perenes de amor. Numa manhã entrou no consultório, o pai da criança, bastante nervoso, logo esclarecendo que a filha estava muito mal. Pedia ao médico pressa para atendê-la. É na zona rural.
A caminhada dói longa pelo denso cerrado, onde as árvores frondosas pontificam a sua própria história ou a história de cada um, descrita na sombras acolhedoras. Quem sabe, também ali, os animais se refugiavam do calor ou das intempéries, enriquecendo o colorido das campinas.
O doutor chega ao local do chamado.
Menina doente. Bem pequena ainda.
Indócil e temerosa, estranha a presença do médico.
Antigamente para acalmar a criança rebelde, a mão dizia: "cou chamar o doutor para fazer uma injeção".
Criava na mente infantil a figura do médico como sinistra e mal feitora.
Toda uma psicologia infantil, dentro de nossos limites, teria que ser aplicada para que dois entes humanos, médico e criança, se entendessem, pois, sempre se encontrando na caminho do sofrimento.
O doutor acostumado a lidar com as criança, tratá-las desde o período acadêmico e
mais em serviços pediátricos, adquire a prática segura e benfazeja em torná-la amigos ou, pelo menos acessíveis aos exames médicos.
Os pais, muitas vezes, não tem paciência com a rebeldia infantil e procura contê-las com energia.
Faz por bem, porque quer o bem do filho.
O doutor espera acalmar o ambiente.
Familiariza-se devagar com a criança, como se também pertencesse á família.
A alma da criança é sensivel, de inteligência espantosa.
Naquela zona rural, àquela hora, o sol batia intenso.
Os recortes dos montes, as ondulações das árvores no seu dorso, enfileiradas, pareciam sagradas caravanas no deserto, pacenciosas na travessia.
O médico precisa de muita paciência para chegar á criança que também, com jeito e carinho, vai cedendo; se tornando quieta.
Talvez, a rebeldia a extenuasse. Cansasse.
Sofria. A doença a castigava.
Os olhos brilhavam e inquietos mostravam o seu temor, o seu temor, o seu receio, mas solicitava, no íntimo, o fim de seu padecer.
O doutor, precavido, mas andanças médicas, principalmente para atender crianças, levava alguns brinquedos.
O que não faltava era uma boneca.
O caso não permitia esperar mais. Era preciso agir.
Estende a mão à criança, na qual trazia uma boneca.
A criança entre receiosa e querer o brinquedo, cedo, desconfiada, pega o objeto do seu enlevo.
Consentiu em examiná-la.
Que mais desejaria a menina, além da cura, o carinho dos pais, senão uma boneca?
Os seu olhos inocentes brilham mais, diante do brinquedo. Alumiam a alma como as estrelas no céu.
O doutor aplicou a medicação de urgência. Outros se lhes seguiram, além da vigilância constante.
Alegre a criança. Satisfação incontida dos familiares.
Tranquilidade ao médico.
O doutor se prepara para regressar à cidade depois da última visita à zona rural, cujas revisões médicas foram necessárias.
A menina agora abraça o médico e como que agarrada à cintura do mesmo, não quer que ele se despeça. Despedir, não!
Mas o faz.
Sucedem-se os anos.
Uma acontecimento pleno de emoção.
Anos depois o doutor vai a localidade onde exerceu a profissão por alguns anos.
Família muito amiga o chamara.
Acontece fato inusitado, surpreendente mesmo.
Em plena calçada da rua principal, senhora já avó fixa o seu olhar na fisionomia da pessoa, como se a conhecia há anos. Percebe e reconhece que se trata do médico que, na madrugada fria e chuvosa, fora atender a criança que é a sua filha.
Não havia que duvidar.
O mesmo homem - o mesmo profissional ma medicina.
A senhora, emocionada aproxima-se, com alegria e o cumprimenta.
Tinha algo a amostrar ao doutor e convida para entrar em sua casa, próxima do local onde se encontra.
O mistério foi logo desfeito. Surpresa agradável.
Mostra ao médico uma boneca nas mãos de sua neta que aperta ao colo o brinquedo e vai ninando.
A filha guardou o presente do médico, como bem precioso.
De criança à mocidade, a boneca está guardada.
Casa-se e tem aquela menina que também agora brinca com a mesma boneca.
É o seu enlevo, como outrora, fora o enlevo da mãe, criança, permitia o doutor examiná-la, com mais tranquilidade, apesar do sofrimento que a aflígia.
História comovente.
Que brinquedo em que a menina desde tenra idade pede ou espera como presente senão uma boneca? A criança, a menina quer trazê-la nos braços, mimá-la, fazê-la dormir, tal como acontecera com a sua mãe.
Fala-lhe tanta coisa, o brinquedo.
Guarda-a como símbolo da delicadeza e da ternura.
Os tempos podem mudar.
Surgem as máquinas poderosas, aeronaves cortam os ares; remove-se a terra; pertuba-se o silêncio das pedras. Exploram-se planetas.
Só não muda o desejo da criança, da menina pela boneca.
A mente da criança é nobre a altiva.
A mente pureza d'alma!
Que inocência sagrada!
Quer a boneca para o seu enlevo.
Dos palácios às choupanas; das luzes dos grandes centros, à escuridão dos arredores, há em alguma moldura ou móvel, ou em qualquer canto, bem protegida, um brinquedo, principalmente a boneca para a inocência e a delicadeza da alma feminina, angelical.
Quantas lembranças, como a que motivou a história, tantos médicos viveram, lidando com as crianças de sua pediatria.
Um gesto, Uma recordação.
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