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Eram frequentes os chamados na Serra da Boa Vista.
O doutor segue em animal especial, cuja marcha macia e ligeira, como convém para vencer longa distância.
Tem que transpor a montanha.
Matas seculares. Pastagens exuberantes.
O viajante naquelas paragens não desanima, antes se embriaga com a visão paradisíaca cuja magnítude faz esquecer as agruras da viagem.
Por isto mesmo, sem se aperceber, vai vencendo a distância e chega ao local do chamado médico.
Naquele dia, estão ali, em poucas moradas, acometidas de doenças respiratórias, complicações adivindas do sarampo, que se alastrara na região.
O médico as examina. Prescreve a terapêutica.
Prepara-se para regressar. Retornar preocupado.
Há meio século, os recursos são limitados, muitas vezes empíricos, que
anteviam alta mortalidade infantil.
"Jesus ajuda os pequeninos".
É a convicção. A nossa fé.
Para não se errar, nem se perder naquela íngreme, existe no dorso da serra, à beira do trilho, uma cruz. É um marco, um ponto de referência.
Próxima, uma casa.
É a "Fazendinha". Ficou assim, conhecida.
Quase secular. Está abandonada.
Não totalmente.
De vez em quando, portas e janelas abertas.
O pau a pique se estragando, como se fossem costelas que perdessem o seu revestimento.
Descarnados.
Tapera.
A cruz está encoberta pelo cipó São João, de lindas e pequenas flores.
Há sempre uma curiosidade que movem as mentes e que vai se somar aos mistérios intrigantes da vida.
Há algo de místico na história.
Cada um que passa por aquele ermo deposita uma flor do campo em torna da cruz e faz "o pelo sinal", respeitoso. Característico cristão.
O querer saber algo, aguça a curiosidade, até de um historiador, mesmo novelesco...
No regresso do médico, como uma vara mágica, surge o imprevisto surpreendente.
De pé, encostado à porta de saída da casa, uma voz solicita ao médico para chegar. Precisa falar com o doutor.
Queria um exame médico, está bem doente.
Ao fazer-lhe as indagações, necessárias e costumeiras, abre-se-lhe a mente e, como quem procura encontrar pessoa de confiança para conhecer a sua vida, como testemunho da história.
Pede ao doutor se puder, paciência para o ouví-lo.
É longa a declaração.
Confissão até então contida.
Tendo regressado do atendimento às crianças, o médico não teve pressa.
Convidado para uma conversa, aceitou. Sentados sem bancos toscos, à vontade, na simplicidade e limpeza da casa, vão se conhecendo melhor, o médico e o personagem.
O dono falava bem, gesticulação expansiva.
De vez em quando, erguia a cabeça, ficava os olhos para indicar a longa distância de onde viera.
Boiadeiro dos lados da Campanha, conduzia o gado para a província de São Paulo, atalhando caminhos que davam àquele lugar a Serra da Boa Vista, galho importante da Mantiqueira. Apenas trilhos batidos, verdadeiros faróis geográficos. Assim foi a conquista dos bandeirantes e, por sua vez, a andança dos mineiros às
longínquas terras paulistas e de Goiás.
Após essa ligeira divulgação, retorna o fio da história.
Boiadeiro dos Lados da Campanha gastam de menina-moça. Enamoraram-se.
Todas ás vezes, de regresso das viagens, ia procurá-la imediatamente. Era também ansiosamente esperado.
Cavou, com a paixão, um lugar no peito para o seu amor, suja saudade o acompanhava, pelas montanhas de Minas.
Em cada pousada, no breve descanso, enriquecia a lembrança da pessoa amada.
Continuou sofrendo demais em cada ausência.
Pediu-a, então, em casamento.
A recusa dos pais foi mediata, sem aceitar qualquer ponderação.
Era impossível fezê-lo. Entregar a um desconhecido a única filha, enlevo e grande amor paterno.
O amor fala mais que a razão, e, nele, bate mais alto os planos que o redimem.
Traçam, então, a aventura.
Medem o risco da fuga.
Dois animas arreados, cavalos imponentes acostumados para longa marcha. Longa caminhada.
Tudo preparado.
Naquela hora, o próprio farfalhar das árvores esponta o silêncio da madrugada e o suave murmúrio que produz, como num cântico, a canção dos amantes.
Ensurdece o barulho da fuga.
Em cada animal cavalga um amor, pelos grotões e Serra, sem agora saber medir a distancia, porque esta tem o início que emociona, mas o fim não se sabe e, se o tiver, como será!
Abrigam-se em pousadas costumeiras, dormem em barracas improvisados; em ranchos no dorso e nos vales da Serra.
Tudo era leva na intensidade do amor.
Enternecidos numa paixão louca, não mediam sacrifícios. Cansados, procuravam local para maior repouso.
Como se houvesse adrade escolhido, pela sua beleza, o alto da serra da Boa Vista, na fazendinha, há tempo sem moradores e que, agora, pelo direito de amar lhes pertence.
A moça procura descansar. Não resiste à exaustão, ao impacto de incontrolável canseira, da extenuante jornada.
Adoece.
Os recursos médicos inexistentes as estradas. Medicamentos empíricos.
Sombria a situação da menina-moça.
Agrava-se aquele ser humano, tão frágil quão lindo.
Fugiria pela grandeza de um amor e encontra o sofrimento, a doença e a morte. Aqui o fim.
O restante conta-se.
Quantos vezes, talvez; pensava no passado buliçoso de menina travessa, no colo materno ou na carícia do pai. Quem parte pelo Amor, mede a distância do prazer e do sofrer.
Aquele homem taciturno vivia a paixão. Queria reviver casa instante do passado. Agora passado e presente estavam naquele ponto geográfico no alto da Serra da Boa Vista.
O castelo de seus sonhos desmoronou, ruiu na calmaria da montanha, na poesia do sertão, que fora planejado na loucura das estradas.
As alegrias brilhavam os caminhos.
As lágrimas molhavam as estradas da fuga.
A fazendinha, agora abandonada.
Quase desfeita. Solidão assustadora. Supersticiosa.
Só o vento bate nas janelas e portas restantes.
Ninguém nela mais vive.
O morador, conta-se, enlouqueceu.
Ninguém sabe o seu destino.
Fincada, deserta, braços inclinados, sobreviveu a cruz da moça. A cruz da Serra.
Guia dos viajante. Reverencia dos que passam. Marco secular da história.
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