Sobre o Autor

Toda semana uma nova história vivida e romanceada pelo Dr.Pedro Simão Zenun

Dois Casos
Duas Vias Dolorosas

          Novos horizontes e perspectivas à frente do médico.
        Numa nova fronteira a dimensionar, enorme campo de trabalho, com êxito e fracassos. Especializa-se em saúde pública.
        Um dos projetos mais alvicareiros, embora penoso, o da lepra, ou hanseniase, e o da tuberculose.
        A lepra era e ainda é um estigma a marcar, tristemente, o resignado portador da doença.
        Pelas estradas carroçáveis, inicia seu trabalho epidemiológico, ou seja, encontrar doentes e contados para tratamento e prevenção do mal.
        Encaminha-se ao bairro Serra da Divisa. Alcança a ponte estreita do rio do peixe, encachoeirado e destemido rio. Perde o nome na confluência do Rio Cabo Verde, que vai enriquecera caminhada bacia das furnas.
        Um lavrador trabalhava na margem do Rio. O doutor, para não se perder, pede orientação ao roceiro. Frisou bem para não atravessar a ponte, mas continuar pelo caminho que margeia o leito d'água, até alcançar o sopé da montanha. Subir pela estrada que alcança o espigão e logo do outro lado estava a Fazenda Velha, onde erguia centenária Panheira.
        Seguindo aquele roteiro, chega-se à Fazenda Velha.
        O doutor para obter melhores esclarecimentos, bate na porta da casa. Senhora de meia idade surge à janela. Indetificou-se o médico. Queria algumas informações sobre doentes.
        ___ Entre, por obséquio, aqui tem um doente. É o meu irmão.
Casa velha, com paredes esburacadas, come de fossem feridas não cicatrizadas. A base da casa de pedras exportas ao tempo, sem reboco, se revestia de um limo verde, como suor encardido de um sofrimento prolongado.
Disse a Senhora: "o doente está neste quarto. E meu irmão. Padece de loucura."
Quadro tétrico e comovente: devido à gravidade, principalmente pela agressão e fúria, estava acorrentado.
        Ali dormia, se alimentava, o ser humano por mais bruto que fosse, não resistiria àquela tortura.
        A psiquiatria, naquela época, tinha duas soluções: mandar o doente para o conhecido e velho manicômio de Barbacena ou acorrentá-lo, quando agitado e agressivo.
        O arsenal terapêutico de hoje é uma consagração no campo das doenças mentais. Se muitas vezes não cura, impede os métodos brutais de contenção.
Receita o que se sabe, naquela circunstancia. Talvez um paliativo. Pensativo, o doutor deixa a morada.
        Como missão especial era a hanseniase, o médico agora, segue serra abaixo até chegar à fazenda de Maria Conhecida.
        Casa de tamanho médio, mal conservada, aspecto taciturno, sem vizinhança. Talvez e medo da doença, a repulsa, provocasse o isolamento. Abandonada.
        Triste seres vivendo em alegria, na triste moranda.
        O médico é reconhecido na sala, pela filha Isa.
        Isa era bela.
        Figura altiva na conversa, elegante nos gestos.
        Explicada a nossa finalidade na saúde pública, iniciam-se os exames.
        Embora de especto saudável, Iza trazia todos os sinais e sintomas da forma contagiosa da lepra.
        O doutor explicou a doença, a necessidade de exames periódicos e uso continuo da medicação.
        No quarto que dava para a cozinha, uma voz fraca pergunta à filha quem é a visita e o que deseja.
        ___ É o doutor. Veio para examinar e fornecer remédios.
        ___ "No meu quarto não precisa entrar. Sofro de reumatismo. Reumatismo não tem cura."
        Aos poucos, persuadindo os parentes, todos foram submetidos a exame médico.
        O levantamento dos doentes e de contados foram de alta valia.                  
        Prosseguem, periódicamente, tratamento, revisão de doentes e de contatos.
        Hoje os recursos obtidos pelas pesquisas e experimentação são bastante amplos e auspiciosos, no combate à lepra.
        Revisão de 6 em 6 meses.
        Iza estava melhor, mas deprimida. Perdera a mãe octogenária. Com o acontecimento, os parentes se dispersaram.
        Iza ficou só.
        ___ Doutor, quero interior. Acho-se isolada.
        Diante da súplica daquela marcada figura humana, o médico providenciou a internação.
        A sua beleza não se alterava com os sinais da doença, melhorada com a medicação adequada e contínua.
        Naquela época, a internação era mais fácil, pois difícil o tratamento devido a resistência do doente ao uso indefinido da medicação.
        Com o prontuário do antigo posto higiene, Iza internou-se.
        Despede do médico. Agradece-o.
        Correm os dias.
        Passa algum tempo.
        Comunica ao médico e amigo, que desejava se casar, no leprosário, com internado que conheça. Nasceu entre eles intensa afeição.
        Pedia opinião do doutor, sem a qual ficaria indecisa para assumir o compromisso.
        A palavra do médico muito lhe importava para concretizar o seu sonho de amor, sonho que aquece, sol da mocidade. Aguardava resposta urgente, através de um sobrinho seu, que costumava visitá-la.
        Que conselho dar à linda hanseniana?!
        Todos os seres, todos as coisas aspiram à luz do amor que é manisfestação de simpatia mútua que nasce, floresce e dá frutos.
        O médico manda dizer a Iza que se regozijava com o casamento. Fosse premiada na nova vida a iniciar.
        A efetividade e o entendimento, no Amor, são desígnios internos, espirituais, que nascem d'alma, para num encontro, se eternizarem.
        Casou e vive feliz.
        O médico teve seu coração inundado de alegria por ser útil tantas vezes e agora, em circunstância jamais esperada, à grandeza de uma alma humana, rejuvenescida no sofrimento.
        Encontrou do seu relacionamento afetuoso e sincero, a sua terapêutica ideal. E, no leprosário ou nas suas proximidades, vivem felizes dois hansenianos, considerados curados pela ciência médica e pelo Amor que dos uniram.
        A gratidão de Iza se torna constante na memória do médico.
        Quem sabe, ao fim destas evocações, pelo vendaval da vida profissional, o médico se sinta recompensado pelo que pôde fazer aos seus doentes.



 webmaster - Bússolanet ® 2002