Sobre o Autor

Toda semana uma nova história vivida e romanceada pelo Dr.Pedro Simão Zenun

As Crianças da Minha Pediatria


            Não é um caso.
            Muitos casos de atendimento às crianças, incontáveis até.
            Há meio século o doutor segue para o Interior de Minas.
            Incerteza no futuro.
            Chega à localidade para inicio da vida médica.
            Atende na cidade e na roça, indo às residências, além do consultório.
            Costume da época. Região que abrange alguns municípios. Acontece também com os outros médicos.
            O número de profissionais da medicina era pequena e a população relativamente grande para cada um.
            Inicia a clínica.
            Cada dia que passa, aumentam os clientes, principalmentes crianças. É o médico de crianças, como vai sendo chamado.
            Os termos pediatria e pediatra pouco pronunciados.
            O doutor frequentara, trabalhando muito, diversos serviços no Rio de Janeiro, durante anos.
            Deus permitiu que, assim, acontecesse, pois de valia extraordinária na sua vida, numa época que o médico que saber tudo. Falar em especialidade, nas localidades pequenas era inaceitável pela população. O chamado, qual fosse o caso médico, teria que atendê-lo, levaria a pecha de ignorante ou de displicente.
Clínica intensa, difícil para todos os profissionais.
            Mais difícil ainda era ser médico de criança.
            Lidar com rescém-nascido, na sua delicadeza, na excitabilidade do pré-escolar e do escolar.
            E, principalmente, no primeiro ano de idade, "pedra angular da vida".
            As mães sofrem como os filhos, com a mesma intensidade no padecimento dos mesmos.
            É comum ouvir: "doutor faz tudo para o meu filho; tudo que sabe para curá-lo."
            É a súplica natural do Amor Materno.
            Dir-se-ia que nada acontece.
            Há uma calmaria.
            De repente, como em céu azul, sem mancha, aparece uma nuvem.             Tolda-se o céu. Um raio prenuncia o tempestade.
            A criança fica doente.
            Só está chorando, só está sofrendo.
            A criança pequenina não sabe falar porque ainda é luz; o seu olhar é a sua linguagem; o seu semblante a intensidade de seu padecimento.
            É o espelho onde se refletem a saúde e a dor.
            Entrou na vida acariciada pelo amor de mãe. E, por isso, a mãe não aceita o gemido que dilacera a sua alma; o choro que dói e a aflição que atordôa.
            Confia, apela e exige do médico da criança para aliviar e curar o seu filho.             É o pediatra que ali está, como sentinela incansável na peleja que o destino de sua vocação lhe determina.
            O doutor também não admite senão a cura e a felicidade de pequenino ser.
            Cercado em torno do berço, é como ser sagrado, ao qual se dirige eterna prece. Tudo proteção e carinho.
            Os sentimentos nas embates da profissão não permitem aceitar que o doente gravemente enfermo assim continue.
            O médico não concorda com a terrível sentença, em que clinicamente, considera o caso de seu doente, um caso perdido. vai até o fim.
            Sem que ninguém se aperceba, o médico sofre. Seu sofrimento fere intensamente a sua alma.
            As ocasiões que, assim aconteceram o feriam. Ferimento que o tempo não cicatriza.
            Continua doendo.
            Apesar de tudo, não pode, nem deve esmorecer.
            Tem que prosseguir.
            Quando o doutor revê o passado de lutas, trabalhos e sacrifícios, dominam as emoções e se inunda de recompensa.
            Os fracassos perdem a significação diante do que se criança, o trabalho na medicina preventiva, foi uma dádiva Divina.
            As preocupações, os anseios do médico não devam ser desoladores, mas abrigos esperançosos.
            A tudo instante em chamado para a tender criança. Cada período da doença da criança, meditação.
            Cada dúvida, um mistério preocupante.
            Cada cura, o sentimento de tranqüilidade.
            Não tem sossego e nem lhe convém.
            A cada momento, a lágrima d'uma mãe.
            Havia ainda um vazio a preencher nos conhecimentos, para melhor servir à comunidade, aos seus doentes e, principalmente, às crianças.
            Ausenta-se da clínica por um ano.
            Especializa-se em Saúde Pública.
            É a medicina preventiva, dando as mãos à medicina Curativa. Elos de uma mesma corrente.
            Forças que se conjugam.
            Benefícios que se somam.
            Um novo e imenso campo do saber.
            Estende-se da Engenharia Sanitária à Bioestatística; das doenças infecto-contagiosas às imunizações; da psicologia à sociologia; dos acidentes na infância às dificuldades escolares; da higiene mental a tantos outros temas ligados à Saúde Pública e à infância.
            Todos foram trabalhados com resultados fecundos.
O título que muito enobreceu o doutor e amenizou o caminho de jornada, foi ser "Médico de Criança".
            No entardecer de sua vida, como a luz tranqüila do pôr do sol, sentiu a certeza de Ter servido com intenso amor às crianças de sua pediatria. 
            Prosseguiu como peregrino na estrada de Damasco, na Humanitária Cruzada.



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