Sobre o Autor

Toda semana uma nova história vivida e romanceada pelo Dr.Pedro Simão Zenun

A Sonhadora

          Chamado médico nas lagoas do cedro.
        São dez léguas da cidade.
        Os mensageiros não tinham condução. Vieram a pé, nesta longa caminhada para servir ao vizinho.
        Em cada bairro rural existiam pessoas dedicadas ao espírito de solidariedade humana.
        No velho cavalo, bem conhecido, segue o doutor em direção às campinas, na madrugada.
        Após horas de desafiante percurso, atinge as Lagoas do Cedro. Uma delas teria que ser atravessada à pé, afundando-se nas águas, nas partes mais rosas.         No chuvoso, formam-se diversas ilhas.
        A casa estava ilhada. Dificuldade ao alcançá-la.
        ___ Quem está doente é a minha filha, naquele quarto, aponta a mãe.
        Menina-moça, loira magra e bonita. Falava bem, como se tivesse algum estudo. Nem as primeiras letras, no entanto.
        Isolada naquelas planícies, vive a correr atrás das borboletas e espantar as garças que nadam na superfície das lagoas. Conhece estas como ninguém.
        A doente está com febre, desânimo, sede, tosse, escarros sanguineos róseos. Os sintomas e sinais levam ao diagnósticos de pneumonia.
        Tratamento na época com sulfa e penicilina, aplicada de três em três horas, dia e noite.
        Estimulantes respiratórios e antianêmicos.
        Os mensageiros trariam os medicamentos receitados. Vizinho experiente aplicaria as injeções.
        Entardecia.
        Tudo orientado, o médico procura regressar.
        Ao despedir-se da moça, ela confidenciou ao doutor que desejava ir embora dali, onde a vida lhe parecia monótona demais.
        Ir para a cidade.
        O doutor aconselhou não praticar aquele ato temerário, deixando os pais, abandonar tão magnifico lugar, com lindos cedros, belas lagoas, circundadas pelas campinas. Fauna exuberante: lobos, pacas, veados, capivaras, cachorro do mato, garças e pássaros diversos.
        Região extremamente saudável, emboera distante e isolada de qualquer tipo de comunicações.
        Os habitantes eram calmos, tinham saúde, prolongada. Daí o ditado do lugar: "morar no campo e trabalhar nas montanhas."
        Nas campinas o sol era igual o dia todo, nas montanhas a luz solar varia, conforme as ondulações. Tinham lugares que nem sol batia. As planícies eram mais saudáveis.
        Os pais da moça acompanham o médico e lhe confidenciam que a filha está de cabeça "virada".
        Quer deixá-los. "Tememos por esta aventura."
        "Os olhos dos pais enxergam longe".
        Vencida a idade que julgava-se presa à autoridade dos velhos, deixa-os chega à cidade para ficar definitivamente. Procura o doutor por recomendação dos pais agradecê-lo e se aconselhar, se necessário.
        Alguns meses depois, vem ao consultório.
        ___ Deseja consulta?
        ___ Não, vim apenas informar que estou satisfeita. Amo e sou amada.
        ___ Você casou?
        ___ Não. Moro na "zona". Sou a mais querida, pela minha beleza. Desde que cheguei, chamam-me de "branca". Cabelos loiros, pele alva e vestida de branco, justificam o apelido, "Branca".
        Passado certo tempo, comparece ao consultório.
        Não era mais aquela estátua da beleza e da elegância. Espectro do que fora. Desalentada e tristes, expôs o rosário de doenças venéreas mal curada, vida alcóolica e alimentação deficiente.
        Queria recursos médicos.
        Não procurava antes o médico de acanhamento, de vergonha. Arrependera de não ter seguido o conselho de permanecer nas campinas, com os velhos pais, na beleza das lagoas.
        A ilusão se transformou em desespero. Era um esqueleto vivo.
        Foi internada na Santa Casa.
        Recebidas as medicações necessárias, o repouso e alimentação adequada, melhorou bastante.
        Bem diferente eram as suas condições, já não mais precárias. Estado saudável. Seguiu alegre, agradecendo a todos que se empenharam na sua recuperação.
        Quando tudo parecia bonança, chega a tempestade.
        Foram-se as ilusões e na dureza dos desgostos, procurou o fim.
        Embebeu o vestido e o corpo de álcool. Ateou fogo à roupa.
        O doutor, chamado com urgência, depara-se com Branca, inteiramente queimada e morta.
        Morte instantânea.
        Sua brancura crestou-se.
        Qual ave emplumada que abandonou o ninho e se perdeu na amplidão de um mundo incerto e pantanoso.
        Deixou a vida tragicamente.
        E, naqueles minutos de desolação, o médico ao ver Branca queimada e sem vida, acabrunhou-se. Pareciam chegar aos seus ouvidos, como pancadas fortes e repetidas, as vibrações das frases tantas vezes pronunciadas pelos pais de Branca, quando menina-moça, ao sair de casa:
        "teremos por esta aventura,
        Os olhos dos pais enxergam longe".



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