Sobre o Autor

Toda semana uma nova história vivida e romanceada pelo Dr.Pedro Simão Zenun

Adelina

          
        Tarde calma.
        O médico está lendo o último número da Revista de Medicina, que chegara pela correio.
        Entra no consultório o Senhor Paula, com a filha Adelina, bonita e faceira.
        ___ Doutor a minha filha precisa ser examinada. As "más línguas" estão falando que ela não e mais moça. Examinada, quero atestado para esfregar no nariz dos maldizentes.
        ___ Senhor Paula, não há necessidade de submeter a sua filha a este exame.
        ___ Absolutamente, tanto que estou afirmando a inutilidade de submeter a moça a este tipo de exame.
        Enquanto o médico conversa com pai e filha, a moça sem que seu genitor percebesse, apoia a decisão de não se conhecer o estado de seu hímen.
        Na sala de exame clinico e ginecológico, Adelina expõe a sua situação, com o namorado Epifânio.
        Saiam juntos às cidades vizinhas, onde permaneciam por longos horas.
        "Está explicado. Para que exame?!" Exclama a moça!
        Na sala de espera do consultório, o Senhor Paula não se convenceu no modo que a filha esclarecia os fatos. Exaltou-se e caminhou em direção a moça para agredi-la.
        De qualquer maneira, queria o atestado. Era a sua teimosia. Sem o papel, era-lhe impossível aceitar qualquer argumento.
        Se não agressão à Adelina, disse o doutor, daria o atestado.
Aceitando a decisão do médico, o Senhor Paula se acalmou e aguardou a escrita, tão almejada.
        Nos termos seguintes, lavra-se o atestado.
        "Atesto sob o meu grau de médico, que Adelina, Filha do Senhor Paula é perfeita, tanto que apresenta a genitária normal, podendo exercer a Função        Maternal, com grande orgulho para seu pai".
        ___ Está bom assim? pergunta o doutor.
        ___ Gostei muito. Minha filha é perfeita.
        Batia orgulhosamente, o Senhor Paula, no papel, como se fosse a arma decisiva a impedir a insinuação "maldosa", sobre a integridade virginal da filha.
        Adelina era dominadora.
        Frívola, brincava com os sentimentos de seus namorados. Mas um dia resolveu casar.
        Convites distribuídos.
        Na véspera do casamento, entra desarvorado no consultório o noivo dela, o segundo.
        ___ Doutor, Adelina me escreveu este bilhete: "Não pretendo mais casar. Adeus".
        Porque o médico chamado a resolver tão amoroso problema? Porque não outro mais adequado ou abalizado?
        Configura-se, no caso, o sofrimento de um ente humano que sente a dor do desprezo, na exiguidade do tempo que o separa do dia do matrimônio, que não se realizou.
        Doença física ou doença d'alma, envolve-se o médico.
        Possue a intuição privilegiada para desvendar o que se passa nas almas atribuladas. Dá a solução que pode não ser do agrado de quem solicita, sua amplitude mostra o caminho certo para as incertezas dos confusos desvios.
        Mostrou ao moço que mais valia era a sua inteligência apara a luz e não o sentimento sem racionalidade que o leva a sofrer.
        Terrível se chegasse ao casamento. O matrimônio teria vida curta. O bilhete que mandou aio moço espelha a realidade.
        Na mente, como em um filme, se alternam imagens reais e ilusórias.
        Umas convencem, outro torturam.
        Adelina se casou com o Epifânio, seu primeiro namorado.
        Teve filhos. Todos nasceram com o auxilio do doutor.
        Partos difíceis. Atendimentos aos filhos na infância.
        Adelina tinha ambição sem medida.
        A sua beleza, irriquietude e a sua coragem, povoaram de sonhos delirantes a sua cabeça.
        De tropeço em tropeço, conheceu o desvario e a humilhação. Foram-lhe a beleza e a mocidade.
        Um ciúme doentio a domina e oprime sua alma.
        O tempo murchou e destruiu as rosas de sua juventude.
        Não era fácil ser médico do interior.
        No decorrer da vida profissional, para todos os casos e para tudo, consegue o médico suportar e dividir com o cliente, o peso de tantas aflições e desencantos.




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