|
Tarde calma.
O médico está lendo o último número da Revista de Medicina, que chegara pela correio.
Entra no consultório o Senhor Paula, com a filha Adelina, bonita e faceira.
___ Doutor a minha filha precisa ser examinada. As "más línguas" estão falando que ela não e mais moça. Examinada, quero atestado para esfregar no nariz dos maldizentes.
___ Senhor Paula, não há necessidade de submeter a sua filha a este exame.
___ Absolutamente, tanto que estou afirmando a inutilidade de submeter a moça a este tipo de exame.
Enquanto o médico conversa com pai e filha, a moça sem que seu genitor percebesse, apoia a decisão de não se conhecer o estado de seu hímen.
Na sala de exame clinico e ginecológico, Adelina expõe a sua situação, com o namorado Epifânio.
Saiam juntos às cidades vizinhas, onde permaneciam por longos horas.
"Está explicado. Para que exame?!" Exclama a moça!
Na sala de espera do consultório, o Senhor Paula não se convenceu no modo que a filha esclarecia os fatos. Exaltou-se e caminhou em direção a moça para agredi-la.
De qualquer maneira, queria o atestado. Era a sua teimosia. Sem o papel, era-lhe impossível aceitar qualquer argumento.
Se não agressão à Adelina, disse o doutor, daria o atestado.
Aceitando a decisão do médico, o Senhor Paula se acalmou e aguardou a escrita, tão almejada.
Nos termos seguintes, lavra-se o atestado.
"Atesto sob o meu grau de médico, que Adelina, Filha do Senhor Paula é perfeita, tanto que apresenta a genitária normal, podendo exercer a Função
Maternal, com grande orgulho para seu pai".
___ Está bom assim? pergunta o doutor.
___ Gostei muito. Minha filha é perfeita.
Batia orgulhosamente, o Senhor Paula, no papel, como se fosse a arma decisiva a impedir a insinuação "maldosa", sobre a integridade virginal da filha.
Adelina era dominadora.
Frívola, brincava com os sentimentos de seus namorados. Mas um dia resolveu casar.
Convites distribuídos.
Na véspera do casamento, entra desarvorado no consultório o noivo dela, o segundo.
___ Doutor, Adelina me escreveu este bilhete: "Não pretendo mais casar. Adeus".
Porque o médico chamado a resolver tão amoroso problema? Porque não outro mais adequado ou abalizado?
Configura-se, no caso, o sofrimento de um ente humano que sente a dor do desprezo, na exiguidade do tempo que o separa do dia do matrimônio, que não se realizou.
Doença física ou doença d'alma, envolve-se o médico.
Possue a intuição privilegiada para desvendar o que se passa nas almas atribuladas. Dá a solução que pode não ser do agrado de quem solicita, sua amplitude mostra o caminho certo para as incertezas dos confusos desvios.
Mostrou ao moço que mais valia era a sua inteligência apara a luz e não o sentimento sem racionalidade que o leva a sofrer.
Terrível se chegasse ao casamento. O matrimônio teria vida curta. O bilhete que mandou aio moço espelha a realidade.
Na mente, como em um filme, se alternam imagens reais e ilusórias.
Umas convencem, outro torturam.
Adelina se casou com o Epifânio, seu primeiro namorado.
Teve filhos. Todos nasceram com o auxilio do doutor.
Partos difíceis. Atendimentos aos filhos na infância.
Adelina tinha ambição sem medida.
A sua beleza, irriquietude e a sua coragem, povoaram de sonhos delirantes a sua cabeça.
De tropeço em tropeço, conheceu o desvario e a humilhação. Foram-lhe a beleza e a mocidade.
Um ciúme doentio a domina e oprime sua alma.
O tempo murchou e destruiu as rosas de sua juventude.
Não era fácil ser médico do interior.
No decorrer da vida profissional, para todos os casos e para tudo, consegue o médico suportar e dividir com o cliente, o peso de tantas aflições e desencantos. |