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Bem cedo. Madrugada mesmo.
Frio intenso. Telhados brancos pela geada.
Chamado o médico.
___ " A minha mulher está Ter criança e a parteira mandou dizer que não dá jeito."
Sou o Cezarino da Imaculada.
O médico atende imediatamente e com a maleta sempre pronta de material obstétrico, chega à casa da doente. Rua do Capim. Não muito longe.
Exame obstétrico.
Cabeça do feto iniciando a sua penetração na bacia óssea inferior materna.
O doutor notou que a cabeça da criança apresentava pequena abertura.
O fato só poderia ser confirmado quando a porção cefálica se desprendesse ou nascesse.
Criança sem batimento cardíaco.
Decorrido o tempo de mais ou menos uma hora, a cabeça desce, enche o períneo
Com aplicação terapêutica, intensificam-se as contrações do útero e, por conseqüência , nasce a criança, e demais porção teve expulsão imediata e natural.
A criança nasceu morta.
Aqui quase a tragédia.
A cabeça do recém-nascido apresentava ferida incisa, por instrumento cortante, pois a criança não tinha nenhuma anormalidade.
Neste instante, a pratica da episiotemia introduzia tesoura na vagina da gestante, atingindo a cabeça do feto e causando a ferida, que sangrava. Causa da morta.
A mãe desesperadamente começou a chorar e reclamar a criança. Primeiro filho. Sofrera muito.
Sabedor do acontecido, se desespera e lhe causa choque psíquico. Não existia consolo.
O pai, vendo a criança morta e com ferimento exangue, se descontrola. Caminha em direção à curiosa para agredi-la, brutalmente.
Forte como é, resultava ali a prática de mais um crime, de proporção inenarrável.
O doutor, atônito, pressentiu o desastre e caminhou, corajosamente, contra o esposo.
Disse-lhe com energia: "O senhor foi chamar a parteira. Durante a noite esteve zelando, ajudando a mulher, o árduo desempenho de trazer a criança ao mundo.
Não lhe cabe, portanto atitude violenta, contra pessoa fraca e idosa, embora tenha errado grosseiramente. O crime que ameaça praticar lhe duplicaria a cumplicidade."
O senhor Cezarino da Imaculada obedece à ponderação médica. Mediu o erro que ia cometer.
Continuava chorando e condenado a curiosa.
Misturavam-se imprecações. Choros e desesperos, o ambiente confuso é como se fosse pedaços de corações a se lacrimejarem. Apagavam-se as fisionomias das pessoas e das cousas...
A parteira, aconselhada, regressa à casa dela.
O médico quer conversar a mãe a se manter tranqüila, lhe doesse a perda do filho e que saberia entender e perdoar.
O perdão é a arma dos que sofrem para ter a divina recompensa de uma desilusão ou de uma ofensa.
Teve mais filhos sadios que encantavam sua vida.
Um ou mais nasceram com a intervenção do doutor.
Crescidos e bonitos alegram a mãe e enfeitam o lar.
Continuava para o doutor as atribuições, o médico é chamado alta noite para atender senhora idosa, viúva, bastante doente.
Qual não foi o espanto ao verificar que a paciente é a parteira daquela noite lúgubre. Padecia de grave insuficiência cardíaca.
Estava nos dias derradeiros da vida. Prognóstico sombrio.
___ "Doutor estou no fim. Mandei chamar o senhor para apenas dizer que nunca esqueci de sua coragem e de sua bondade. Não posso relembrar o erro que cometi e que tanto me fez sofrer na vida."
Aquela senhora idosa, pobre, tantas vezes piedosa, no seu mister, aperta a mão do médico num gesto de derradeira despedida.
Apenas pronunciou: "Deus lhe pague".
E o fim não tardou.
O doutor compreende agora, como os colegas, todos sofrem e não desanimam.
Lutam pelo bem superior que é a saúde do semelhante e resistem aos desencantes de sua missão, como folhas outonais que, calcadas, choram.
E apesar de tudo, a heróica caminhada continua.
Como diz Emerson: "escolhe um ideal qualquer que seja, mas atrela-o a uma estrela".
Ninguém mais que o médico precisa deste signo para iluminá-lo e protegê-lo.
Se não o tiver, sucumbirá no inicio ou ao meio da peleja.
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