Sobre o Autor

Toda semana uma nova história vivida e romanceada pelo Dr.Pedro Simão Zenun

Parto Tumultuado

          O doutor vai para o Interior de Minas.
          Difícil. Muito sofrimento.
          Via dolorosa que não termina nunca.
          "É assim mesmo. Que fazer. Médico é para isso."
          São palavras vindo de todos as bocas e através dos tempos.
          Chamados para parto.
          Aflige o médico, como se verificando, na intensa clinica, os atendimento obstétricos e as crianças. Era de se pôs as mãos à cabeça e refletir sobre a situação sempre dramático, conforme o caso mais ou menos grave.
          O motivo é natural, porque a mãe e a criança, que no altar do Amor, cultuam o porvir de seus sonhos e a graça de sua beleza.
          No inverno chuvoso de janeiro, o médico é chamado para atender um parto.
          Trata-se de Emiliana, filha de Dª. Balbina. A família é conhecido pelo seu nervosismo exagerado.
          O doutor vai imediatamente.
          Chuva torrencial. Ruas bastante escuras por deleito na rede elétrica da cidade, precária na ocasião.
          A casa da doente não ficava muito longe. Está apinhada de gente. Família numerosa.
          Ansiosamente espera a chegada do médico.
          Bem recebido. Cumprimenta a todos.
          Dirige o doutor ao quarto da paciente.
          Parto. Primeiro filho.
          Dramática situação.
          A parturiente está de pé, sobre a cama, discutindo com as duas parteiras solicitadas. E mais o incansável farmacêutico Senhor Rodrigues, acalmando e auxiliando. Prestimoso, está em toda parte da cidade, servindo ao próximo.
          Como se tratava de primeiro filho da moça, a solução é morosa.
          Não suportando as dores das contrações uterinas, a gestante permanece de pé, irritada.
          A excitabilidade da doente aumenta o limiar da dor.
          Se intensa, torna-se insuportável.
          O doutor consegue fazer o exame obstétrico, após paciente palestra com a gestante.
          Parto atrasado. Tudo normal. Demoraria algumas horas.
          A chuva continuava. Madrugada fria.
          Várias vezes o médico é chamado.
          Parto em progressão. A parturiente continua não obedecendo às determinações dadas pelo doutor.
          É a hora de usar energia, com bondade, para evitar o cansaço da mãe e o sofrimento da criança.
          Como sair daquela situação sem aborrecer, ou sem aborrecer tanta gente?           Como trazer tranqüilidade àquela que vai ser mãe, que está desesperada?
          Em outras salas da casa, avós da gestante lamuriavam; a mãe, impaciente, esfregava nervosamente as mãos, como a exigir solução urgente.
          Irmão conversam ansiosamente.
          Ambiente de pânico.
          O doutor chama a todos.
          Esclarece-lhe que, sem a calma necessária da parturiente, o parto não chegará a bom termo.
          Não considerando nenhum desapreço à sua pessoa de médico, insistiu que viesse outro colega assumir a responsabilidade do caso. De início não aceitaram.           Chegara então, o Dr. Sil., Obstetra antigo na região.
          Às 9 horas, já do dia seguinte, vão juntos à casa da moça, como é de praxe e da ética.
          O doutor examina a parturiente.
          Procura dominar o quarto aflitivo, com os seus conselhos. Progressão do parto adiantado.
          Numa das contrações uterinas, mais intensa, mais dolorosa e mais longa, quando o colega auxilia a futura mãe, esta se descontrola.
          Toca os pés dela na face do doutor.
          Quebram-lhe os óculos. O colega perde a serenidade. Reage à agressão inesperada, com palavras resolutas.
          A parturiente dá um grito. Entra em convulsão.
          Dramática situação.
          Com o grito da moça e com a voz possante e resoluta do colega, o quarto é invadido pelos familiares.
          A porta do quarto, então fechada, cedeu à pressão dos mais descontrolados.
          A luta se trava.
          O colega expulsa os invasores e a confusão se complica.
          Ninguém entende mais nada.
          Na visão célebre das fotos, surpreende a magnitude do ilustre colega. 
          Transtornado pelo acontecido e, sem óculos, considerou a sua ação limitada. Solicita então ao colega da localidade, que o chamara, a assumir o trabalho de parto, já no final.
          ___ Preocupa-nos a mãe e a criança, vai repetindo.
          Tempos depois nasce a criança, em boas condições vitais. A mãe sente-se melhor, se acalma e descartada fica a suposição de eclampsia devido à convulsão.           O exame clínico assim o confirma.
          Os médicos consolam a mãe. Desculpas recíprocas.
          A família silenciosa assiste aos médicos atravessarem a grande sala do casarão, depois de árdua intervenção médica.
          O silêncio daquela boa família, nervosa e impaciente, significava agradecimento aos doutores.
          Estes também sem dizer palavras, traduziam acanhamento e desculpas.
          Um quadro médico como este, e tantos outros presenciados e assistidos, na clínica do Interior, ampliam o sofrimento do médico, do doente e dos famílias.
          Toda confiança e consideração, o médico, recebe das famílias. No exercício da medicina, a Razão e a ciência devem dominar o sentimento, embora não esquecendo nunca o Amor ao doente.
          Recolhido ao silêncio profissional, o médico recorda dos municípios onde exerceu a clínica e vive na contemplação dos fatos e das gentes.
          É a beleza da medicina.
          Paisagem e povo enchem a sua memória, misto de saudade e esquecimento.



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