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O Severiano, homem da roça, simples e bom, é residente na Queimada. A esposa, dona Maria, sempre doente.
Vivia no consultório. Sabedora da chegada na localidade de médico, recém-formado ou não, comparece à consulta. Quer alívio para seu padecer.
Exame médico minucioso.
Nada de anormal é encontrado, organicamente.
Queixa-se de tudo.
Ora vômito, dor de cabeça. Tremores. Quase sempre "nó" na garganta, falta de ar e, assim por diante.
Uma patologia inteira. Como se fosse em livro de doenças.
Seria um caso de distonia neuro-vegetativa ou, simples pitiatismo, com toda sua nuance clínica?
Várias consultas se seguiram. As terapêuticas instituídas um fracasso. Remédios inúteis.
Surge crise intensa que preocupa a família.
___ Dona Maria está cega. É a informação.
Chamado o doutor, vai imediatamente à sua casa.
Parentes e vizinhos locupletam os cômodos. Todos conversam e dão palpites, como é natural.
"O médico é novo. Será que dá conta da doença?",
comentários feitos aos cochichos.
O doutor examina a visão da doente. Todas as manobras arquitetadas fracassam.
Não há desânimo.
Como no jogo e no guerra, diante de iminente derrota, abandona-se a técnica e parte-se para a tática.
Instalara-se na localidade, um circo com a clássica composição: trapezistas, lindas artistas e outros figurantes. O circo é sempre uma Escola de Arte.
Truques diversos e magias para todos gosto.
O médico, revendo a doente, falou sobre o espetáculo. A fama do circo.
No ânimo da palestra, o doutor insistiu para o Senhor Severiano assistir aos espetáculos. Deveria gostar das apresentações.
Resolveu, pois seria um descanso.
Dona Maria, embora "não enxergando", interferiu na prosa, não aceitando que o marido fosse sozinho. Queria também ver as demonstrações circenses.
Ai estava o "nó" da linha. Ciúme...
Queria que o doutor receitasse um último remédio, ainda não usado e que fosse capaz de aliviá-la.
Era esperançosa. Desejava a cura, há tempo perseguida.
O embaraço do médico é grande. Negar a solicitação é como descer a ladeira perigosa do descrédito.
Sempre apreciou a Psicologia que bons resultados dera, em muitos casos, na longa e movimentada clínica.
O doutor, depois de muito pensar, estudar nos livros e revistas, armou a imaginação que iria surpreender a doente, pela novidade.
Receitou:
Para a Sª Maria de Jesus Severiano
Uso interno.
Pílulas de "macro-panis de chevretin", com cascara Sagrada. A - formula.
Para 1 pílula, mande 60 (sessenta)
Tomar 1 pílula de 6/6 horas no 1º dia e de 8/8 horas no 2º dia, em diante.
É levada à farmácia para ser aviada.
O Sr Rodrigues, farmacêutico antigo e com grande experiência o ofício, estranhou a fórmula. Não podia executar a receita.
Á noite, o doutor vai à farmácia, depois de fechada e trata de resolver a receita.
Toma massa de pão umedecida, suficiente para arredondá-lo. Adiciona um pouco de cascara sagrado (este nome sacro), na proporção de 0,10 do pó para cada pílula, pedacinhos de pão umedecidos, cada um corresponde a uma pílula.
Os demais detalhes são de conhecimento do profissional, cuja maestria na farmácia técnica é perfeita.
O farmacêutico Rodrigues, extraordinária figura humana , julgou tratar de uma brincadeira.
___ A sua cooperação é importante, diz o doutor.
Executou a fórmula, caprichou na manipulação e na embalagem e guardou o segredo entre profissionais.
Ele mesmo levou à casa da doente e deu o recado muito melhor que o médico.
Explicou ser difícil encontrar o material para confeccionar as pílulas de técnica delicada.
Falou à doente e aos familiares com entusiasmo, como é do seu feitio. Garantiu que a cura se realizaria.
Medicação francesa e nunca tinha visto.
A doente tomou as pílulas conforme prescrição e no 3º dia de tratamento apresentou visão normal.
___ Severino, vou ao circo também.
___ Você está melhorando. Não pode abusar.
Dona Maria pediu que consultasse o doutor, sobre a ida ao circo.
O Senhor Severino encontrou o médico e deu o resultado milagroso do medicamento e o desejo de a mulher comparecer ao espetáculos.
___ Bom sinal, disse o doutor. Deve ir mesmo.
Foi.
Aplaudiu todos os números apresentados, com risos, aplausos e muito entusiasmo.
Como nada mais sofrera, o Senhor Severino perguntou ao doutor, à pedido da esposa, se terminada as pílulas, poderia usar mais.
___ "Pode, respondeu o clínico. Não há necessidade de tomar por muito tempo.
Cautela é sempre bom."
O Senhor Severino, simpático roceiro, vendeu a boiada baia de estimação para pagar a dívidas, peças suas andanças à procura da cura para a mulher.
Acumulou, novamente, recursos, e comprou a mesma boiada. Os bois carreiros.
Era a sua paixão e a sua vida...
"Devo isso àquelas pílulas de nome arrevesado."
Sempre repetia a frase.
O circo foi para o médico inspiração, como se fizesse parte do seu elenco.
A intuição na medicina é misteriosa.
Parece que se ouve, ao longe, a cantiga dolente do carro de boi do Severino.
É a cantiga que o enleva e enciúma...
São os bois carreiros, obedecendo ao dono.
Chama-os, pelos nomes, com a sua voz romântica.
___ Na medicina não bastam os remédios.
São necessários apoios ao doente.
É a psicologia a aprofundar, nas palestras, para obter dos que sofram, tudo que povoa sua mente.
De um extremo ao outro.
Da atribuição à bonança.
Penetra-lhes a alma. Perscruta o consciente.
Traz à tona os sentimentos ocultos no subconsciente.
Estuda-os. Interpreta-os.
O psicológico obtém a chama sagrada que elimina a descrença, a depressão ou a excitação.
É um novo caminho que se constrói para a mente sofredora.
Conduz o paciente, que adquire confiança própria, ao sagrado direito de viver feliz. |